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Da vida de Pi

Da vida de Pi... nilla. Uma espécie de director's cut, vá. Vivo de ler e escrever. De ler escritas, de escrever leituras, de debater termos e criar frases. Aqui escrevo da vidinha. Vidinha de Pi, é isso.

Da vida de Pi... nilla. Uma espécie de director's cut, vá. Vivo de ler e escrever. De ler escritas, de escrever leituras, de debater termos e criar frases. Aqui escrevo da vidinha. Vidinha de Pi, é isso.

Da vida de Pi

08
Jan17

Ainda estou trémula (não estou, mas podia)

Pi

Mamãe diz hoje, pela hora de almoço:

- Então o Djalson era para voltar agora, olha o que lhe aconteceu...

E mostra-me a fotografia de um pé partido. Claro que eu não ouvi "Djalson", mas Gelson, e dei um grito. 

Depois ri-me, por achar que a minha mãe teria o boletim clínico do Gelson, mas na altura até suei frio.

Precisamos todos de ter mais calma na vidinha em geral, é um facto. As melhoras as Djalson, que um pé partido nunca pode ser bom, e ele vive de dançar. 

8/365

06
Jan17

Dia de reis, sem saber ler

Pi

Esta manhã, no centro de saúde, uma senhora veio pedir-me que lhe lesse três cartas (nada de muito romântico, EDP, SMAS e Egas Moniz) por não saber ler. Li, naturalmente, mas não pude deixar de pensar no que é um mundo sem saber ler. Eu sei que se sobrevive, sei que as pessoas se desembaraçam como tiver de ser - "às vezes peço aos meus vizinhos", disse-me - mas até o pormenor de incerteza - "esta  deve ser do hospital", apontando para o logo verde no envelope - me fez pensar como será viver sem uma pista do que diz seja onde for. Quem nunca soube, possivelmente não sentirá um abismo, mas é essa a imagem que me vem à cabeça. Um vazio enorme de informação. Mas são pessoas ricas de outras coisas, dir-me-ão. E eu digo, para já, que isso é um piroseira, e depois, não é só não ler jornais ou livros, é mesmo um logo não nos parecer certo. Também já soube de casos de uma pessoa que até às compras vai e nunca se engana, e aproveita promoções. Não se fica um atado sem saber ler, eu sei. Eu saber é que estraga isto tudo. 

Tinha reparado no casal antes, ouvi a senhora perguntar "já chamaram o nosso?", o marido responder primeiro um pouco brusco "não", como quem diz "ainda aqui estamos", mas depois percebeu e respondeu "para o nosso não". 

Quando a mulher me abordou, ele manteve-se no lugar, calado, olhar em frente. Pode não saber ler, mas não baixa os olhos perante a sua fraqueza ou o desembaraço da mulher. 

6/365

05
Jan17

Maria ao quinto dia

Pi

A propósito da lista de nomes mais usados em 2016, a TVI foi à rua saber sobre estes e outros nomes, sobre escolhas dos pais, e nomes invulgares. 

Perguntaram a uma senhora (que devia ser mais nova que eu, mas o género era feminino, senhora portanto) se gostava do nome Maria. Que não, "não sou muito adepta desses nomes muito... À reis e rainhas." Muito bem, gostos são gostos e não se discutem. 

Mas... Maria é nome de rainha? É, de facto tivemos duas. Também é nome de santa, a maior de todas (digo eu), e nome de milhões de mulheres, em séculos de Marias neste país. E é nome de bolacha.

Maria é Maria, senhores. Não há nome mais português, mais sóbrio e despretensioso. Eu sei que há modas, mas Maria até nessas circunstâncias é muito discreto, há nomes que dão muito mais nas vistas quando são moda.

E debrucemo-nos sobre a definição apuradissima "à reis e rainhas". Que é isto? Eu percebo onde quer chegar, ainda que discorde, mas é assim que se defende um conceito? Durante as reticências eu achei que se seguiria "antigos", "conservadores", "portugueses". Qualquer deles seria mais eficaz e TV friendly. Não dominar conceitos pode ser um problema, de facto.

Voltando à entrevistada que não gosta de nomes de reis e rainhas, livre-nos Deus de a criança sair de coroa e ceptro, com a mania que manda. Perguntaram-lhe que nome daria a uma menina (relembro que nomes pretensiosos, não obrigada). 

Resposta a "e se fosse uma menina?“: "Diva." 

Obrigada, e boa noite.

5/365

04
Jan17

Dia 4. Taxidermia ou Animais de parede

Pi

Tenho mixed feelings, nada de muito sério, é aquela confusão entre um "ah, tão giro!" e o imediato "mas parece errado". Falo daquelas taxidermias de parede que há, umas cabeças de animal - calma, já explico - em peluche ou em cartão (é procurar por  exemplo "faux taxidermy", "plush taxidermy", ou "cardboard taxidermy" - muito importante colocar a primeira palavra, ou vão, naturalmente, dar com imagens infelizes de animais verdadeiros!). 

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Eu assumo, quando vi quer umas quer outras, gostei logo, achei graça àquele falso assumido. Há tecidos maravilhosos (já vi um veado em chita de Alcobaça!), cartões crus, de xadrez ou mil cores, de uma só cor ou douradas, inventa-se de tudo, e ainda bem. E repito, gosto do falso assumido, do "isto nunca quis ser uma cabeça de animal, só estamos a aproveitar o suporte e a ideia", como flores numa espingarda (eu não disse cravo), vejo assim. A reciclagem de uma coisa sinistra, para uma coisa fofa.

Mas no segundo seguinte, quando vi, fez-me alguma impressão, por tentar recriar uma cabeça de animal na parede, daquelas tenebrosas. Ainda por cima, algumas são pensadas para quartos de crianças, e eu até percebo que seja provável uma criança não associar que falta o resto do animal, mesmo nas de verdade. Mas será coisa para prolongar no tempo? "Antigamente fazia-se isto com cabeças de animais a sério, javalis, veados... Hum? Exacto, como o Bambi!". Sou franca, em criança raramente as vi, mas sei que até passar debaixo de uma, me tirava o sono à noite. 

Fiquei a pensar se estaria certo - para mim, não para o mundo, quem sou eu? - invocar essa coisa, mesmo que a brincar. Ainda hoje não sei bem. Continuo a ver e a achar graça. E continuo a repensar.

Por outro lado, se eu uso e gosto de pêlo falso em volta de um carapuço, de pêlo falso no forro dos meus casacos, de animal print em tudo e um par de botas, que diferença haverá entre isso e um rinoceronte em cartão na parede?

Hum... Não sei, hesito. 

 

4/365

03
Jan17

Dia 3. A Lena do bibe encarnado

Pi

No João de Deus, onde andei dos 3 aos 10 anos (para sempre na minha cabeça, ou "pela vida fora João de Deus"), a referência para anos diferentes é a cor do bibe. Quem lá andou ou anda, orienta-se assim -"estávamos no bibe castanho", "em que bibe andas?", "Qual é o teu bibe este ano?", é uma coisa que nos fica, lá  está, pela vida fora. 

A Lena do bibe encarnado era uma das educadoras da altura em que eu estava no dito bibe (o dos 4 anos). Não era a minha, mas acompanhava os almoços, ficava connosco em alguns recreios, e por isso havia contacto. 

Eu tinha medo da Lena. A memória que tenho é de uma senhora um pouco ríspida, apesar de me lembrar de a ver sorrir - um sorriso de lado, só com um canto da boca -, de poucas palavras connosco. Tive um episódio com ela que me ficou sempre: uma vez, ao almoço, pus de parte o bocadinho mais apetitoso do peixe (quem nunca?) para ser o último. Aquele estava mesmo bom para ser o último a saborear. A Lena, que estava na supervisão dos almoços, apareceu por trás de mim, pegou no meu garfo, e misturou o peixe todo, enquanto dizia "o peixinho é para comer todo!". E eu chocadissima, mas em silêncio, que nem me atrevia a responder a adultos, muito menos aos que me metiam medo. Lembro-me que o meu pensamento imediato foi: "Nãoooooo! Eu não sou aqueles meninos que não gostam de peixe!".  E não era. 

A Lena tinha um dom: contava histórias como ninguém. Naqueles intervalos em que não podíamos ir brincar para o jardim, e ficávamos no salão, contava-nos histórias. Era uma narradora nata, tinha o tom certo, a entoação perfeita, fazia cada personagem sem grandes teatros mas de uma forma que eu, ainda sem saber ler, os vivia como os dos livros que li mais tarde. Contava-nos histórias, e eu ficava presa em cada palavra até ao fim.

Ouvi "A guardadora de patos", "A princesa e o sal", entre outras, muitas vezes. A que me marcou mais, tanto que nem a versão Disney a suplantou, foi "A Bela e o monstro". A Lena contava-a tão bem, que eu via a fera (não sei se ela não lhe chamaria fera) nas suas torres, serpenteando e perdendo a pele no fim da história. Ontem vi uma rosa numa cúpula de vidro, anunciando a nova versão de "A Bela e o monstro", e mais uma vez me lembrei da Lena e os recreios em dias de chuva, a ouvir histórias.  

Nos bibes que se seguiram, gostava sempre de tudo, mas tinha pena de já não fazer parte daqueles intervalos de histórias de encantar - ficaram sempre no bibe encarnado. Era encantada que eu ficava, juro.

3/365

02
Jan17

Dia 2 In love with food

Pi

Ainda não sabia onde passaria a meia-noite, e já tinha feito a minha resolução de fim de ano: encomendar um bolo In Love With Food

Escrevo este post deitada no meu sofá, enquanto recordo o bolo merengado com creme de chocolate. Já lá vamos. 

Conheço a Antónia e o Luís, destas andanças virtuais já desde 2009, e fui acompanhando este delicioso projecto quando apareceu. Este sábado, sob pretexto de ir buscar o dito bolo, conhecemo-nos pessoalmente. E é tão bom conhecer quem, de alguma forma, já faz  parte do nosso dia a dia, pelas redes sociais. Fica connosco o momento, a repetir. Avancemos para o bolo então. 

Quanto a Antónia mo mostrou, o cheiro a chocolate serpenteou pela sala. Como se eu fosse um desenho animado, e ele se me enrolasse em volta de toda a cabeça. 

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Já à mesa, em prato digno de um bolo assim, fez um brilharete. E é igual às fotografias que tinha visto e me tinham feito decidir. Na hora de o partir... O som, senhores, o som! O merengue estaladiço, e o creme a amortecer o golpe num "pof" abafado. Maravilhoso.

O sabor. Bom, não será novidade dizer que todo ele sabe a chocolate. Se forem chocoholics, atirem-se de cabeça. Se não forem, experimentem-no uma vez na vida. Ou um dos outros, igualmente deslumbrantes, que estão em In love with Food. Quem provou não esquecerá, prometo. 

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01
Jan17

Dia 1

Pi

Durante o dia, ideias que passam - às vezes passam mesmo de vez - para o primeiro post do ano.

Um tema do quotidiano, ou um marco por ser 1 de Janeiro? Crítica de costumes, ou fait divers? Proponho-me e assumo já o desafio de leitura, ou vou com calma com as imposições?

Aqueles desafios de fotografias, uma por  dia por exemplo, gosto de acompanhar mas nunca me meti nisso. Há pouco tempo vi o da fat mum slim. Era só para Janeiro, não exigia um ano de imagens, parecia óptimo para experimentar. Dia 1, o tema é a nossa cor favorita. Como assim cor favorita? Uma? E definitiva? Tem de ser para sempre, ou pode ser a do momento? E pronto, fiquei neste ponto, ainda não sei se me decido até às 23:59.

Pensei impor-me no título um 1/365. Mas não quero que o título pareça uma regra ou obrigação (pareceria?). Deixo aqui no meio do texto, e logo se vê. 

E assim está feito o post de dia 1. Pensar alto em post dá nisto. Prometo não fazer batota amanhã. 

 

Ps: não há limite máximo para posts, apenas mínimo 

01
Jan17

2017. First we take Manhattan

Pi

Eu sei, não se fazem balanços de ano velho, já em ano novo, mas eu não fiz o meu antes e apetece-me agora.

Sim, 2016 foi terrível nalguns campos, cheio de golpes na nossa nostalgia e mortandade nas nossas referências. É um facto.

Pessoalmente não me posso queixar. Foi um ano cheio de novidades, das boas, diverti-me inclusivamente a trabalhar (e muito), vi textos meus publicados, vi as minhas pessoas felizes e estive feliz quase todo o tempo. Mais anos possam ser assim.

Pode ser da hora, pode ser da festarola, mas como resolução de ano novo (nunca as faço, não me organizo nas resoluções, quanto mais na concretização), vá virei diariamente escrever alguma coisa.

Bom Ano, um grande 2017!

22
Dez16

O Livro das Coisas Boas (by yours truly)

Pi

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Verdade, este livro tem textos meus! O desafio foi lançado e eu aceitei-o. A ideia estava pensada, era preciso dar corpo - e alguma graça, sempre que possível - ao texto. Dei-lhe umas voltas, juntei umas ideias e escrevi.

Apesar de ter textos, é um livro para cada um preencher como quiser. Recortes, desenhos, palavras, cores mil ou um só tom. Massinhas, lantejoulas, bilhetes e bilhetinhos. A ideia é ficar com memórias físicas e portáteis. Ou desejos por concretizar. Pretendo começar o meu em janeiro, mas podia começar em qualquer altura.

Este livro não seria o mesmo sem as ilustrações da Lucy Pepper, é indiscutível. Imagens que dizem tudo, sem interferir com o conteúdo que cada pessoa escolher para estas páginas.

 

Tenho recebido opiniões e palavras simpáticas. Deixo algumas das que estão online: 

 

Estante de Livros 

Num mundo em que o digital domina as nossas vidas, a necessidade de nos desligarmos é, parece-me, cada vez maior. A minha perceção pessoal é que a vontade de voltar ao papel e à escrita à mão está em crescendo, e ainda que me agradem sobremaneira as possibilidades e facilidades que os smartphones e toda a restante tecnologia me oferecem, acho que continua a existir magia nos objetos físicos e em coisas que criamos de raiz com as nossas próprias mãos.

 

As leituras da Fernanda

Há uns dias, caiu no meu colo um livrinho muito singular:
O Livro das Coisas Boas.
Achei-o um verdadeiro mimo, e tenho cá a impressão que vão haver umas certas pessoas a recebê-lo neste Natal. ;)

 

Menina dos Policiais 

 

Flames

(...)neste livro tudo é permitido, por isso se vos apetecer desenhar, pintar, cortar, rasgar, esfregar... podem fazê-lo. Assim, este não é mais um daqueles livros onde precisará se sair de casa e ir comprar material de desenho. É um livro que agradará a um público mais vasto, de miúdos a graúdos onde escrever é a palavra de ordem.

 

Ler é Viver

É um livro muito especial, porque é um livro sobre nós mesmos, sobre a nossa vida, sobre o que de melhor nos aconteceu e sobre o que de melhor há em nós. Vai-nos trazer alegria e conforto e vai-nos fazer felizes, muito felizes! É um livro sobre coisas boas! E quem não precisa de coisas boas?! 

 

Esta opinião capturou exactamente o meu objectivo ao escrever os textos do Livro das Coisas Boas. Fico contente por ter conseguido passar a ideia:

As leituras do corvo

E depois há os pequenos textos a apresentar cada categoria. Sim, é provável que o mais importante seja o que quem o preenche tem para recordar. Mas há, naquelas curtas palavrinhas, uma certa insinuação de liberdade, quase como que uma compreensão sem reservas, que, além de inspirar, incentiva, pois realça o carácter pessoal e intransmissível das memórias. E assim, retira-lhe todos os julgamentos.

 

Ainda para guardar no próprio: o Natal está aí, e o Livro das Coisas Boas entrou no top da Fnac esta semana. *saltinhos*

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