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Da vida de Pi

Da vida de Pi... nilla. Uma espécie de director's cut, vá. Vivo de ler e escrever. De ler escritas, de escrever leituras, de debater termos e criar frases. Aqui escrevo da vidinha. Vidinha de Pi, é isso.

Da vida de Pi

Da vida de Pi... nilla. Uma espécie de director's cut, vá. Vivo de ler e escrever. De ler escritas, de escrever leituras, de debater termos e criar frases. Aqui escrevo da vidinha. Vidinha de Pi, é isso.

Um domingo de velhos na praia

Pi, 07.09.20

"Este lado é só velhos!"

Assim, como uma pedra numa janela, em plena praia. A Cristiana e os amigos. Aquilo foi peremptorio, toda a gente percebeu que tinham ido dar um passeio e ela quis deixar claro, não tivessem ideias de ali assentar arraiais. Ali é só velhos e pronto. 

Eu sei que o lado da praia onde fico tem muito poucas pessoas da idade da Cristiana. Não, não sei o nome dela, como ela não sabia a minha idade, ou de quem mais lá estivesse. Dá-me jeito dar-lhe um nome para fazer um post, é isso. 

Eu sei que naquela idade - não mais de 16 - dos 30 aos 100 é irrelevante, é tudo velho, todos lhes parecemos igualmente idosos e desinteressantos, pouco cool, e mais, pouco lhes interessam pessoas acima dos 20, quanto mais 30. Não me pesa a minha idade, não gostei do tom como não gosto de qualquer tom malcriadinho, mas enfim. Achei inconveniente dizer aquela sua certeza tão alto, mais pela falta de educação, mas até sei de onde veio. Não me lembro de tratar tudo a "velho", mas houve uma idade em que todas as idades me pareciam só muito longe. 

No fundo até gostei de saber daquele desabafo: naquele lado da praia, não teremos de aturar a Cristiana e os amigos barulhentos, a não ser em passeios que decidam dar por ali. Seremos velhos e em sossego, como se quer.  Foi óptimo para toda a gente. 

Audioli e recomendo: Born a Crime

Pi, 06.09.20

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Terminei há pouco de (audio)ler “Born a Crime” de Trevor Noah, lido pelo próprio.
Sim, eu audioleio. Leio, e-leio, e audioleio. Não estranho os diferentes formatos, gosto de folhear um livro, do seu cheiro, mas quando preciso de andar e desandar, o audiobook releva-se extremamente útil e o e-book muito leve. Adiante. 
A vantagem de ouvir Trevor Noah ler a sua biografia, é que lhe sai como se nos estivesse a contar como foi a sua infância, aqui ao lado, como se estivéssemos à mesa com um amigo. Recomendo a versão original e audio, sem dúvida. 
O título - “Born a Crime”, traduzido como “Sou um crime” na versão portuguesa, creio - reflecte todo o crescimento de Noah, filho de mãe negra e pai branco, em 1984, numa Africa do Sul em que tal união era crime. Desde viver resguardado pelo seu tom de pele, a uma avó que repreendia os seus primos de forma diferente por não saber como castigar um rapaz branco, todo um mundo que sabemos que existiu, mas contado pelos olhos de uma, na altura, criança, é um testemunho imperdível. 
Destaco o hilariante capítulo “Go Hitler”. Não se trata desse Hitler, é um amigo de Trevor que tem esse nome, mas contar mais estraga a graça dessa passagem.É cómico e triste ao mesmo tempo, há dois mundos que chocam sem que nenhum dos dois perceba o outro. 
“Born a Crime” informa e entretém, sem a presunção de mudar o mundo, mas contá-lo - uma parte dele, enfim - como era (ainda é em muitas vertentes, claro).

Adeus, Pedro

Pi, 04.08.20

Soube que o Pedro partiu. Ainda que fora um post ou outro no Facebook, e mesmo esses passam-nos muitas vezes ao lado, não tivessemos grande contacto, o Pedro sempre me fez rir - às vezes quando não era nada aconselhável rir, mas isso fica comigo.

Simpático, orgulhoso dos seus feitos, um ribatejano barulhento que me divertiu muitas vezes à hora de almoço enquanto devorava as suas beringelas recheadas. 

A última vez que o vi foi em frente a um serviço municipal, eu de saída ele a chegar. Tinha-se mudado para o mesmo concelho que eu, para o extremo oposto, mas o mesmo concelho. O sorriso de sempre, "Martinha!". O bom do Pedro. Sempre pronto a "espectacularizar", Benavente style.

Acabou o bicho. Cada um com a sua memória. Respeitem-se

Pi, 18.05.20

Ficou a memória colectiva, dentro dela cada um guarda o que quer. 

Muito se tem dito e escrito sobre o Bicho, bem e mal. Não quero saber mais, não vou ler mais. O bully que passa e destrói uma construção da areia só para se rir, nunca saberá o que aconteceu antes, enquanto foi erguida, se foi divertido, se custou, quanto tempo levou. Nem lhe interesssa. E sabem que mais? Diria o próprio Bruno: "está tudo bem com isso". Falem mal agora, quem acompanhou guardará para sempre. Não é mais nem menos, foi o que foi, fez-nos companhia enquanto durou, criou mini-enredos, fez conversas de temas de nada. Entreteve. E está muito bem assim. 

Não deixar que nos mexam numa boa memória, é o importante. Em tempos, ainda era uma criança, ouvi um adulto dizer "Ninguém tem o direito de me chatear". Cada vez concordo mais. 

Só para deixar um cantinho muito pessoal dobrado. O último foi giro de ver. O próprio não tinha noção do impacto, foi a crú, não escondeu nada e nós gostámos de lho proporcionar. O Dillaz tocar pessoalmente o genérico, apontou logo para bons momentos. O Nelson Évora aos saltos no Coliseu fez-me soltar uma franca gargalhada. Foi bom, fica-nos na memória. Quero guardar duas notas sobre esse último directo: 

"E depois ele quis sossegar as filhas porque “devem estar em pânico” e aparece a Beatriz Batarda a dizer que estão bem e “és o rei”. Entre isso e o inem ligar o som para dizer “és o maior, Bruno” ainda não escolhi o momento mais fofinho"

"Os 'obrigado', os obrigado também são comoventes. Porque é a palavra certa"

E o mar?

Pi, 17.04.20

Sei que está lá, não foge. Vejo até uma nesguinha da minha varanda, ao fundo. Mas é, seguramente, a primeira vez na vida que não passo pelo menos na estrada, ou linha do comboio ao lado do mar, tantos dias seguidos.

 Cresci ao pé do mar, em pequena ia de carro para a escola, parte do caminho ao lado do mar. Hoje em dia vou de comboio, e o melhor bocadinho da viagem é junto ao mar. Sempre que posso vou à beira-mar e com bom tempo, faço praia de maio a outubro.

Mesmo quando viajei, se não havia mas, só estive quatro, cinco dias fora. 
Não é um drama, está lá e vamos voltar a ver-nos. Mas sinto a falta do mar, sinto mesmo.

La mer 🎶
Qu'on voit danser
Le long des golfes clairs

 

Por falar em Azzurra... #diga33

Pi, 14.04.20

Há duas semanas aceitei o desafio #diga33 do podcast Matraquilhos, um podcasto do Hemisfério Desportivo. 

Dizem que tenho boa memória, e guardo de facto muita informação  - quase nunca útil, mas de vez em quando lá sai em alturas adequadas. O segredo é que é quase sempre só para o que me interessa.

Neste caso fiquei um bocadinho apreensiva, seria eu capaz de relembrar 3 onzes de sabia lá quando? Nos episódios que tinha ouvido, o 33 não era garantido, o que me deixou um bocadinho mais à vontade, mas mesmo assim... fui reduzindo as minhas opções "ok, se for o Parma de 98 ou 99, por ali... ou se for o Barcelona de 92, a Sampdoria de 91... e se não for nada disto?! Vá, respira, se for um Sporting talvez me vá lembrando de todos (sem garantias nenhumas)... se forem os campeões do mundo de Riade, ok, talvez diga uns 8... se forem os de Lisboa, até sei os números, mas quererei que saibam isso? Se for a Roma de 2001, talvez chegue a 5 ou 6... Ou Portugal de 96, acho que me sairia bem. E ficavam por aqui as equipas com que me sentiria encorajada a participar - mas podiam muito bem ser estas as que me saíriam. Na verdade, não sabia o que me calharia e olhando agora, foi bastante óbvio e muito simpático. 

Calhou-me então relembrar - reviver até - três selecções de Itália de anos diferentes. Foi giro, viajei no tempo, vi-me com 17, 23 e 29 anos outra vez a olhar para aquelas maglie azzurre todas com que já vibrei e sofri um bocado. Gostei muito!

Aqui está o episódio em que participei, espero que se divirtam. Para mim foi muito giro revisitar os nomes (e os momentos) de que me fui lembrando. 

Coisas que só na rua

Pi, 10.04.20

Eu tomo café em casa, juro que sim e me sabe muito bem. Mas um dia destes veio-me à cabeça a bica ao balcão. Não sofro com não o poder fazer agora, não chega a tanto, mas foi uma saudade verdadeira que senti. 

O café na rua é um ritual que deixa alguma marca. Isso e o peixe frito, também me tem apetecido e não o farei em casa só por ter saudades. Prometo! 

Ainda o internamento de Agosto

Pi, 09.04.20

Como já disse antes, estou a trabalhar de casa e sinto-me bem até ver. Tenho-me lembrado dos dias em que estive internada, no verão passado e das pessoas que trabalhavam naquela enfermaria. 

Entrei numa terça e saí no sábado seguinte, a minha cirurgia foi na quarta ao fim da manhã. Nesse dia, não dei acordo como deve ser até já ser noite, altura em que aproveitei para dizer, por mensagem, que tinha corrido tudo bem a algumas pessoas mais próximas. Sentia-me tão grogue que não achava possível fazer o bendito levante no dia seguinte. Mas fez-se. 

Digo fez-se porque fui com ajuda, tive apoio para me levantar e tomar banho - deram-me banho, sim. Não precisei que me segurassem, mas foi um alívio ter quem olhasse por mim naqueles primeiros momentos pós-operatório. 

Engraçado que me pareceu muito mais tempo, quando na verdade só lá estive mais sexta e meio sábado. Mas as refeições pareceram muitas, ouvir o carrinho chegar pelo corredor mil vezes (foram muito menos), medir tensão, tomar analgésicos, o carrinho, a sopa, hora de medir a tensão outra vez, dormir, acordar, tomar banho, o carrinho com o pequeno almoço, tomar comprimidos, o carrinho, as refeições, dormir. Foram muitas horas, adiantei bastante um livro que levei, dormi quando quis, sentei-me, caminhei, tive tempo para tudo. Um pouco como agora, nestes dias de isolamente. Tudo isto sempre acompanhado por pessoas incansáveis, que faziam camas de lavado, mantinham tudo limpo e a funcionar, vinham ver se estava tudo bem para novo descanso. 
Eu sei, já experiências e experiências. Tive a sorte talvez de uma enfermaria para 9, só ter 3 pessoas naqueles dias. A sorte de as pessoas não estarem saturadas, a TV desligada e ninguém falar alto ao telefone. É possível que tenha tido sorte, sim. 

Já não sei recriar cada momento, nem importa para o caso. Fui bem tratada, não tive praticamente dores e zero complicações. Aquelas pessoas que chegavam pela manhã, apareciam de vez em quando e mesmo a trabalhar também nos faziam companhia, ajudaram muito a que fosse uma boa experiência. 

Uma amiga disse-me na altura "ainda bem que correu tudo bem, assim não tens medo de uma próxima". Fiquei a pensar naquilo, faz sentido. 

Ano Nogueira, corpo um pouco menos dormente

Pi, 08.04.20

Aconteça o que acontecer, Bruno Nogueira já marcou o (meu) ano de 2020. 

Começou no dia 14 de Fevereiro, quando 13 mil de nós escolhemos passar o serão de São Valentim com ele na Altice Arena. Rimos, comovemo-nos, acompanhamo-lo há alguns anos já e vimo-lo chegar até ali. Foi bestial a festa, pá. 

Sem contar com isso, dei por mim em março a adormecer com os directos que faz no instagram, e à semana já não passo sem isso. Não é tanto pelos temas, que tanto começam em nada e passam às cenas dos próximos capítulo - o que é maravilhoso, ver o Mário Laginha aparecer e saber que foi porque no programa de rádio do Polo Norte de que o Markl falou, por sugestão do Nuno Lopes, se pediu que passasse uma música do Laginha e assim foi, como surgem e passam no momento. Ou o Nelson Évora, que foi nomeado um dia e apareceu no seguinte, com um óptimo espírito.

É espectacular ver como um desabafo para falar com adultos se foi desenvolvendo e é um talk show autêntico, com verdadeiras rubricas e mesmo tramas. Bruno Nogueira já tem falado para 50 mil pessoas - 50 - e apesar de ele não nos ouvir, estou certa de que o aplaudimos de pé diariamente. 

O mais giro - além de termos ali o Bruno e amigos para nós e connosco - é a comunidade que se vai formando porque estamos todos na mesma situação. Não é uma moda, não é um hype de que alguns de nós se lembraram agora, ficar em casa porque sim. Estamos todos no mesmo barco, não saímos ao serão, não há concertos, stand up ou futebol, estamos ali. Em casa e ali. Será uma memória colectiva única daqui a muito tempo. No ano da pandemia, vivemos aqueles momentos à distância. 

Não importa entrar aqui muito em detalhes ou descrever tudo o que se vai desenrolando ao longo dos serões de "Como é que o bicho mexe", queria só dobrar o cantinho destes tempos em que espero o copo de vinho aparecer, o genérico do Dillaz, desligo tudo o resto e me aninho só com a luz do ecrã. 

Não sei até quando durará, mas já valeu pelas vezes que aconteceu.