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Da vida de Pi

Da vida de Pi... nilla. Uma espécie de director's cut, vá. Vivo de ler e escrever. De ler escritas, de escrever leituras, de debater termos e criar frases. Aqui escrevo da vidinha. Vidinha de Pi, é isso.

Da vida de Pi

Da vida de Pi... nilla. Uma espécie de director's cut, vá. Vivo de ler e escrever. De ler escritas, de escrever leituras, de debater termos e criar frases. Aqui escrevo da vidinha. Vidinha de Pi, é isso.

Pela manhã, no metro. Mais uma voltinha...

Pi, 26.02.14

Ainda não eram oito da manhã, palavrinhadonra. Ainda oito não eram e já numa das portas do metro havia cegada. O que até não é costume, àquela hora vimos todos tão zombies que ninguém tem paciência para reclamar quanto mais se pegar. Há os mesmos comportamentos que a outras horas, mas não há pachorra para barafustar. 

Eu não os vi, só os ouvi. O metro não ía assim tão cheio mas havia pessoas entre mim e eles. Também não fiz o esforço de espreitar. Lá está, muito sono pouca acção à hora a que estavamos. Sei que era entre um rapaz e uma mulher-que-me-soava-brega.

A discussão estalou com um "não me empurre!" e um "mas eu empurrei alguma coisa?" e continuou no mesmo registo. Acho mesmo que repetiram as frases só variando o tom, cada vez mais irritado. A seguir, o silêncio, voltou a paz do-antes-das-oito.

Duas estações depois volta a ouvir-se um bufar e novo refilar, ainda pelo tal empurrão. Agora em crescendo. Ela quis reavivar a chama e aumentava o tom, foi do "não é tá bem, é mesmo assim" ao "um murro nas ventas que vais ver". E o rapaz defendia-se atacando "cala-te, deixa-me. Acordasses mais cedo já não corrias para apanhar o metro" (ahahaha adorei esta, assumo já aqui). Mais uma vez a paz perturbada, agora com as pessoas a ver se não dava mesmo pancada.

Felizmente ele saía (ou passou a sair) nessa estação e ficaram a trocar insultos da gare para a carruagem e vice-versa. Ela, ainda mais cheia de basófia gritava-lhe agora: "olha, adeus. Vai lá vai. Adeus." ele devia estar azul, chamava-lhe nomes e mandava-a calar-se. Confesso, eu própria a quis mandar calar. Graças a Deus não teve público que lhe desse atenção o resto do caminho. 

Gostava de destacar o insulto dela para ele, porque foi o único não ordinário e muito infantil: "cala-te... ó porcaria"

IPO. Vamos lá falar dele

Pi, 22.02.14

Até 2013 nunca lá entrei. Não quero fazer um post com todos os clichés inerentes, a verdade é que nem os pensei nos dias em que estive no hospital de dia ou no sétimo piso.  Crianças sim, o meu contacto com o ipo tem sido com a ala mais temida. Também eu a temia. Mas o que vejo são crianças, reajo com elas como com todas e antes da pena ou da impressão vejo a criança. Não estou a falar de cor, sei o que tenho visto e sentido, sou a primeira a reconhecer as minhas fraquezas e vi-me mais forte do que alguma vez pensei.  Como tanta gente sentia uma barreira de medo quando pensava em voluntariado ali. De repente dou comigo a tratar de alguém que precisa de lá ir. Um bebé. E tudo o que me custa é por ela, nunca foi por mim, nunca nada me fez impressão ver ou fazer.  Mas estar em casa poderia ser uma coisa e encarar outros casos, meninos, país, outra. É duro, é difícil estar ali e assistir. Mas nunca por mim, nunca foi o "faz-me muita confusão". Esta semana vi uma mãe deixar o filho de 3/4 anos sozinho com uma enfermeira. Ia diariamente fazer o penso num olho e ouvi falar em "quando tiver a prótese". Por aqui se deduz que o problema dele é ali. Perguntaram pela mãe. Não quis ver e saiu. Sim, eu já sei que nem todos temos o mesmo estômago, eu até nem sou mãe e portanto que sei eu, mas isso não devia ser muito mais sobre ele que sobre a mãe? Não há sempre a possibilidade de não olhar? No caso nem isso seria o ideal uma vez que mais tarde deverá ser a mãe a tratar dele e da tal prótese, mas que fosse aos poucos vá. Não sei, não consigo estar ali e pensar nas impressões dos adultos. Na dor, nas dificuldades sim, nas impressões não.  Sempre ouvi que a pediatria ali era o mais duro, e será claro. Mas depois de lá estar, de ter deitado abaixo o tal medo - já o vou deitando desde Agosto, ainda que sem lá ir -, e que era um medo egoísta, um querer não ver, voltarei sempre que for necessário e sem medos. Mas imagino que estar entre os adultos não seja mais fácil. Haverá um peso bem maior do realismo, da noção que entre as crianças chega a não haver.  O mais comovente de tudo e que não esqueço é que para aqueles meninos, como para tantos outros noutros hospitais, os maiores medos ali são "as picas" ou o arrancar de um adesivo.  *lagriminha* Enviado de Samsung Mobile

Do presente: 3 sentidos

Pi, 01.02.14

Tenho presentemente 3 sentidos: visão, audção e tacto (não pleno, que ainda me doi o anelar direito). Concederei que não ter um destes era bem mais grave, mas faltam-me dois ao mesmo tempo e sinto-me numa redoma parva que me impede de sentir cheiros e sabores.

Escrevo isto enquanto não me regressam olfacto e paladar porque já sei que depois só me volto a lembrar como é numa próxima vez. A fase final das minhas alergias passa sempre por um dia (até agora, porque já vou no segundo desta vez) sem olfacto nem paladar. E é... não é nada, nada cheira a nada, nada sabe a nada, é isto e não é mais nada. Nada.

É a casa cheirar a nada, abrir a janela e a rua (às vezes pode ser uma benção) cheirar a nada.

Alimentos que sabem a nada. Reconheço-lhes a textura, os grãos e molhos, mas tudo me sabe ao mesmo, e o mesmo é nada. É boa altura para só comer - o apetite não desapareceu, só não me apetece com a mesma vontade, é só necessidade de comer - saladas, única vantagem. 89% da beleza do café está no cheiro.

Hoje tomei um café que me soube só a quentinho. E pior que isso é que me cheirou a zero, nada, vazio. Qual é a graça de tomar um café que não cheira? Nenhuma, digo-vos eu.

Eu acho que eles vão voltar, tenho essa esperança, ainda que comece a sentir-me presa para sempre num mundo sem cheiros nem sabores. É um bocadinho desesperante, mas vai passar, eu sei que vai.