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Da vida de Pi

Da vida de Pi... nilla. Uma espécie de director's cut, vá. Vivo de ler e escrever. De ler escritas, de escrever leituras, de debater termos e criar frases. Aqui escrevo da vidinha. Vidinha de Pi, é isso.

Da vida de Pi

Da vida de Pi... nilla. Uma espécie de director's cut, vá. Vivo de ler e escrever. De ler escritas, de escrever leituras, de debater termos e criar frases. Aqui escrevo da vidinha. Vidinha de Pi, é isso.

Os fogos. Mais ou menos de dentro.

Pi, 27.10.17

De manhã, eram oito e meia, hora da depilação (demasiado cedo para tal tortura, bem sei). Ocorre-me perguntar, porque nunca sei bem onde é: 

- Tem alguém nas zonas dos incêndios?

Eu achei que sim, mas não tinha a noção de quão próxima a S estava da situação. 

- A minha aldeia é lá. Ardeu tudo até à porta das casas. 

Puxão atrás de puxão, foi contando. 

Perdeu o contacto com a família depois de um "Olha olha, chegou à casa dos pais!". A chamada caiu ainda no domingo, e só voltou a ter notícias segunda feira. Por desencontros, estradas e comunicações cortadas, só segunda feira soube que a família estava bem e as casas (e só as casas, tudo se estragou, quase tudo se perdeu) salvas. 

Mal senti a cera hoje. Eu é que toquei no assunto, e perante o pragmatismo da S, sentir qualquer dor seria ridículo.

Não houve luz, água ou telecomunicações até sexta feira seguinte. O único multibanco só no fim de semana voltou a funcionar. A S, o marido e alguns voluntários conseguiram levar bens de primeira necessidade às pessoas. Três toneladas deles. 

- Quando cheguei à minha aldeia, já não tinha lágrimas para chorar. Conhecer tudo como era, verde, e ver agora tudo preto, tudo queimado...

Foram de porta em porta saber de que precisavam as pessoas. Algumas perguntaram se não tinham "umas ferramentas, para poder consertar algumas coisas".

A S contou sem pretensiosismos. Eu é que puxei o tema, sem pensar bem no que por aí vinha.

Acrescentar só o que já temos ouvido e a S reiterou: toda a vida houve ali incêndios "mas nunca nada como este ano". 

 

PS: Naturalmente não terá sido novidade para ninguém é só mais duro ouvir na primeira pessoa. Não o ouvimos vezes suficientes. Decoramos e mastigamos o que nos entra pelas notícias, sabemos de cor o que nos chega nos rescaldos. Mas ouvir assim, nunca tinha ouvido. Dói mais. 

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