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Da vida de Pi

Da vida de Pi... nilla. Vivo de ler e escrever. De ler escritas, de escrever leituras, de debater termos e criar frases. Aqui escrevo da vidinha. Vidinha de Pi, é isso.

Da vida de Pi

Da vida de Pi... nilla. Vivo de ler e escrever. De ler escritas, de escrever leituras, de debater termos e criar frases. Aqui escrevo da vidinha. Vidinha de Pi, é isso.

Um outro pedacinho do dia por Milão - San Siro

Pi, 11.12.23

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No mesmo dia em que vi a "Última Ceia" tinha guardado uma parte do dia para um não menos sagrado, pelo menos para mim, estádio Giuesppe Meazza ou San Siro.

Nos anos 90 despertei para o futebol italiano, na altura Itália e a serie A eram o topo, o destino dos melhores entre os melhores. Foi nessa década que comecei a reconhecer nomes, caras e pés de jogadores que ficaram para sempre as minhas referências. E Milão foi provavelmente a cidade a que mais prestei atenção futebolísticamente falando, nos primeiros 4 ou 5 anos depois 1990. Não tenho preferências de norte a sul de Itália, mas AC Milan com os 3 holandeses, e Inter de Milão com os 3 alemães, foram as equipas que primeiro me cativaram na adolescência.

Ainda por Milão, tinha então bilhete para uma outra visita, bem diferente do Cenacolo Vinciano: San Siro aguardava-me finalmente.

À chegada dirigir-me ao museu, que não é muito grande, mas está cheio de camisolas, dos mais de cem anos de cada clube, visitantes ilustres e glórias mundiais de décadas e décadas. Um sonho em lã, algodão e muito polyester. Há também troféus - não tenho a certeza de já ter estado perante uma taça da Liga dos Campeões (tenho, nunca estive) - e galhardetes, luvas e bolas de várias épocas. Revi ali camisolas de guarda-redes que adorei, temíveis avançados, defesas inabaláveis. E médios de sonho, naturalmente.

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Saídos do museu, seguimos para a visita ao estádio. Fizemos o percurso dos jogadores, da zona de entrevistas ao campo, passando pelo balneário de cada uma das equipas da casa - sendo o do Milan de bancos individuais, privilegiando cada jogador, o do Inter, banco corrido, valorizando mais o conjunto, conforme nos explicou o guia. 

No balneário do Milan perguntou-nos quem eram os nossos jogadores favoritos, respondi que talvez Girou, o que o levou (talvez um "ru" bem dito) a pensar que tenho um sotaque francês. Disse-lhe que era portuguesa, o que lhe suscitou novo espanto "E o seu preferido não é Leão?!" Expliquei que sei que é "un bravo giocatore", mas a minha religião não me permite. Entendedores entenderão o amargo que ainda sinto a pensar em rescisões, saídas, enfim, ficamos assim. Ou melhor, seguimos com a visita.

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Uma breve visita ao balneário do Inter, um corredor cheio de fotos de velhas glórias, tantas dos meus queridos anos 90, e seguimos pelos corredores até ao campo. Já no último, o dito túnel, é posto som ambiente do estádio, para uma experiência mais imersiva.

Subi as escadas e foi o segundo "nem acredito que aqui estou" do dia (o primeiro está no post anterior). Do relvado via todo o estádio, grandioso, já num misto moderno/antigo mas ainda com tanto do que via em resumos ao Domingo à tarde.

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À saída tive ainda a agradável - mais que isso, super - surpresa de haver uma exposição sobre os 125 anos da selecção italiana, a minha squadra azzurra. Mais um desfile de camisolas e nomes que me dizem muito. Entre vencedores e vencidos, demorei-me um pouco mais em frente às vitrines de 90 e 94, 2006 e 2020/21. As primeiras camisolas merecem menção honrosa, embora não fossem muito confortáveis, suspeito.  De Meazza a Buffon, há muitos símbolos ali representados, um sonho para tiffosi azzurri.

A visita tem uma duração confortável para ver com tempo, estar no relavdo e bancada tempo suficiente para apreciar e tirar umas fotos. Melhor, só mesmo ir em dia de jogo, numa próxima vez em Milão.

Última Ceia - Cenacolo Vinciano

Pi, 06.12.23

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Dividi os meus dias, de 30 de Novembro a 4 de Dezembro assim: 

30/11 - Bergamo

1/12 - Milão, com partida e regresso a Bergamo

2/12 - Bergamo

3/12 - Brescia, com partida e regresso a Bergamo

4/12 - Bergamo, dia de regresso.

Foi uma forma de conhecer mais 3 cidades italianas numa só visita, embora Milão seja definitivamente para voltar. Sempre achei impossível não gostar da cidade, agora tenho a certeza.

O dia em Milão começou na estação de comboios, onde cheguei pouco depois das 10h (saí de Bergamo às 9h03, cada viagem custou 6 euros) e merecia um pouco mais de atenção, mas eu não queria perder tempo de manhã. Tinha a visita à "Última Ceia" marcada para as 11h30 e não queria distrair-me com nada antes disso. Já tinha app dos transportes de Milão instalada no telefone, comprei o bilhete para um dia (7 euros) e segui para o metro. 

Cheguei perto da Santa Maria delle Grazie, ainda não eram 11h, fascinada à primeira vista pelos prédios da Via Giovanni Boccaccio, já a pensar "como é que sempre me disseram que Milão não era bonita?!". Tomei um café no Caffè Ruffini - penso sempre que não estou à altura dos "Buongiorno!"  que me saúdam de trás do balcão, chego-me perto para responder, os italianos respondem à distância, projectando a voz. Um dia aprenderei a ser assim.

Tratei de levantar o bilhete - só ficamos com comprovativo da reserva, o bilhete aguarda-nos lá -, disseram-me que 15 minutos antes podia levantar o audioguida, por isso fui até à igreja antes da visita. Cinco minutos antes da hora, uma guia começa a falar connosco, testamos o som e que maravilha: é a sua voz que ouvimos. Num grupo de 30/35 pessoas, fazendo uma visita, nada mais esperto que a voz de quem nos acompanha chegar tão democraticamente a cada um, sem termos de nos atropelar por um lugar mais perto da sua voz. Parecendo que não, a experiência é outra. Simpática, explicou-nos o que podíamos e não podíamos fazer lá dentro, explicou o percurso e controlos necessários na entrada, fez-nos o enquadramento histórico, e sossegou-nos dizendo que quando entrássemos na sala principal, se calaria uns segundos, para que cada um pudesse ter o seu próprio e único impacto. Gosto de guias com sensibilidade. Lá fomos. 

Num primeiro claustro somos isolados - a porta por onde entrámos fecha-se e a seguinte só abre depois de essa primeira fechar e o grupo anterior sair. Ao som de uns bem relembrados "no video", "no flash, please", entrei no refeitório da igreja de Santa Maria delle Grazie e tive o meu momento. Ao virar-me para a direita, levantei os olhos para a parede e ali estava ela, a ´"Ultima Ceia" e seus azuis, por Da Vinci, a verdadeira, tantas vezes reproduzida por essas salas de jantar. Se me emocionei? Sim. Não sei bem explicar, cada pessoa terá as suas referências, eu vibro com Mestre Leonardo. A cena já foi vista tanta vez, mas chegar ali e ver o original tem definitivamente impacto. 

Enquanto tirávamos fotografias, ouvíamos a guia explicar a luz, orientação e profundidade do affresco Vinciano. Era comum a Última Ceia ser representada em refeitórios de mosteiros, mas Leonardo da Vinci trouxe inovação começando logo por colocar todos os... hum... comensais de um só lado da mesa, criando uma barreira entre nós e a espiritualidade da cena. Além disso, os elementos na arquitectura são poucos, amplificando também ela a espiritualidade do momento, a janela é como uma auréola. Na cara e gestos de cada apóstolo um sentimento diferente, do medo à incredulidade, da indignação à compaixão. Judas segura os seus 30 dinheiros e Pedro uma faca. 

O último restauro da obra de Leonardo da Vinci teve início em 1977 e terminou em 1999, quando finalmente foi aberto ao público. Discute-se se ainda se pode considerar como sendo o original, dadas as reparações de que foi alvo, grande parte passando por repintar por cima da parede, que miraculosamente (ha!) escapou a um bombardeamento em 1943.

Dali seguimos para loja e novo claustro, depois visita à igreja, mas os melhores 15 minutos foram mesmo aqueles em frente à parede do refeitório.